Pedro Caldeira Cabral – Trio

Pedro Caldeira Cabral – Cítara Portuguesa
Joaquim António Silva – Violão
Duncan Fox – Contrabaixo

 

“Guitarristas Lendários”

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A Cítara portuguesa é hoje em dia um instrumento musical indissociável das práticas musicais ligadas ao fado de Lisboa e à canção de Coimbra, tendo em ambas as tradições citadinas sido cultivada activamente por executantes-compositores, sendo alguns deles figuras lendárias que nos legaram nos últimos dois séculos um património popular de inegável valor artístico.

A palavra fado ( do lat.fatum = destino) foi aplicada no século XIX às canções criadas por uma figura social característica de Lisboa : O Fadista, (sin. de malandro, sem profissão certa, amante de zaragatas e companheiro de prostitutas, etc.) , cujos textos muitas vezes improvisados ao som da cítara, narravam as vidas desgraçadas e crenças no destino dos seus criadores e intérpretes originais, actores de uma marginalidade social, cuja canção típica rapidamente foi recuperada e transformada pelas classes dominantes em formas musicais e poéticas de maior grandeza.

A cítara portuguesa dos finais do século XVIII, socialmente desqualificada, era o instrumento ideal para a execução do fado, dadas as características peculiares do seu timbre e da expressividade melancólica obtida com recurso a técnicas particulares de ornamentação e de vibrato (o chamado gemidinho).

Os três generos principais associados à cítara, como era então chamado o instrumento, eram o fado batido (danças da fofa, chula, lundum e umbigada), o fado cantado e as variações instrumentais.

Em 1858 é publicado no Porto a obra de Fétis “A Música ao Alcance de Todos”, cuja tradução contém um glossário de José Ernesto de Almeida, no qual se descrevem a Cítara e a Guitarra da época com a descrição das diferenças no número de cordas, nas afinações e técnicas destes dois instrumentos bem como uma referência ao estatuto social diferenciado dos seus utilizadores.

A partir de 1870 realizam-se concertos regulares de Cítara em salões públicos, cafés e teatros, ficando nos anais da história o que se efectuou no Casino Lisbonense em 1873 e que contou com a presença de doze instrumentistas de grande nomeada.

O século XX assistiu à requalificação social e musical do instrumento, entretanto elevado à categoria de símbolo identitário, frequentemente incluído em representações pictóricas eruditas ( de Mário Eloy e Cândido da Costa Pinto a Júlio Pomar e Graça Morais ) , citado pelos mais famosos poetas (de Fernando Pessoa e Sophia de Mello Breyner Andersen a Manuel Alegre).

Evocamos neste programa o contributo decisivo de gerações sucessivas de criadores e intérpretes que com o seu talento e virtuosidade musical, marcaram as diferentes épocas, inscrevendo-se na história da cítara popular como verdadeiras figuras lendárias, inspiradoras da renovação instrumental das gerações presentes e futuras.

Concluindo, a Cítara Portuguesa de hoje entrou definitivamente na categoria de instrumento de concerto, apreciada internacionalmente, representada por um conjunto vasto de intérpretes, apostados na divulgação das várias vertentes que constituem o seu reportório, bem ilustrado no programa deste concerto.

© Pedro Caldeira Cabral 2017